Domingo,
dia 5 de Janeiro – O nosso dia começou cedo. E nem podia ser de outra maneira. Tínhamos o primeiro voo às 7 da manhã e pela frente (achávamos nós) mais 2 voos
e uma viagem de carro de 2 horas até Urbana. Se tudo corresse bem estaríamos em
casa por volta da meia-noite de Domingo ...
O
despertador tocou às 4:30 da manhã. Foi difícil levantar-me e muito difícil
arrancar a Matilde da cama. Mas lá nos arranjámos todos. A passagem pelo aeroporto
de Lisboa deixa-nos sempre stressados. Muita gente. Filas intermináveis. Uma
organização que deixa muito a desejar. Em contrapartida o voo da TAP que nos
levou de Lisboa a Amesterdão foi impecável: hospedeiras simpáticas, comida
muito decente e até a revista de bordo – Up – é boa! Artigos interessantes,
sobretudo sobre Portugal e os portugueses, e fotografias excelentes.
No
gigantesco, luminoso e bem organizado aeroporto de Amesterdão – Schiphol –
comemos a última (pequena) refeição na Europa, após o que tivemos que passar
pela segurança americana – somos revistados “à séria” e verificam os
passaportes e restante documentação 2 ou 3 vezes. Sinto sempre um nervoso
miudinho!
O voo que
nos leva da Europa (Amesterdão) para os USA (Philadelphia) é longo. O tempo
custa a passar. O espaço é exíguo. O filme que passa no avião é um deja vu – Enough Said (o filme que vimos na nossa primeira ida ao cinema em
Urbana). Quando já
estávamos a mais de meio da viagem somos informados pelo Comandante que vamos
fazer uma breve paragem em Bangor, no Maine, que fica na pontinha nordeste dos
USA, para reabastecer o avião. É uma cidadezinha no meio de florestas e lagos, toda coberta de neve. A
paragem demorou cerca de 1 hora. Enquanto aguardávamos dentro do avião soubemos
que, por causa do mau tempo, o nosso voo de Philadelphia para Indianápolis
tinha sido cancelado. A coisa prometia ...
Quando
chegámos a Philadelphia apercebemo-nos imediatamente que afinal não era só o
nosso voo que tinha sido cancelado. O aeroporto de Indianápolis, bem como
muitos outros do Midwest, estavam encerrados. Lá passámos os Serviços de
Imigração, fomos buscar a bagagem (4 malas enormes) e passámos a Alfândega. O que se seguiu foi o início da pequena
odisseia que tínhamos pela frente ...
O aeroporto
de Philadelphia estava uma confusão. Tentámos remarcar o nosso voo para o dia
seguinte, mas estava tudo cheio. Ficámos em lista de espera no primeiro voo da
manhã de Segunda-feira. Dito assim até parece que foi um processo simples e
rápido. Mas não! Fomos para uma fila, falámos com um funcionário, que incapaz
de nos resolver o problema, nos enviou para outro que ficava no outro lado do
edifício. Lá fomos, arrastando 4 malas enormes atrás de nós. Nova fila, novo
funcionário, em vão. O melhor que conseguiram foi colocar-nos em “stand by”
para o tal primeiro voo da manhã seguinte.
Entretanto
era de noite. Estávamos todos muito cansados. Mas como o cancelamento do voo
foi devido ao mau tempo, a companhia aérea não arranjava hotéis para ninguém. O Rui lá se pôs em campo e (bendita
internet) rapidamente encontrou um hotel perto do aeroporto que ainda tinha
quartos disponíveis! Lá fomos à procura do shuttle
que nos levou ao hotel. Sempre a arrastar 4 malas enormes atrás de nós! Mas que
bem que soube tomar um duche quente e ter uma caminha para dormir!
Segunda,
dia 6 de Janeiro - O nosso dia voltou a começar cedo. O despertador tocou às 5
da manhã, pois o tal primeiro voo da manhã era às 7. Nem tivemos tempo para
tomar o pequeno-almoço no hotel. Chegámos ao aeroporto e verificámos que o
“nosso” voo tinha sido cancelado! E todos os outros desse dia de Philadelphia
para Indianápolis estavam cheios! Bem como os de Philadelphia para qualquer outra
cidade do Midwest (nesta altura do campeonato já estávamos por tudo ...).
Lá voltamos
nós ao “guichet” da US Airways. Mais filas intermináveis. Só nos “garantiam”
voo no dia seguinte e em 3 aviões diferentes: dois de nós iríamos de manhã, um
ao início da tarde e outro ao fim da tarde! Muito prático ...
Poupo-vos
os pormenores das discussões e ameaças do Rui aos vários funcionários da US Airways
que fomos encontrando pelo caminho. Tenho sempre muitas dúvidas que esta seja a
melhor abordagem, mas os nervos estavam à flor da pele. E
admiro-lhe a capacidade para, em situações de stress, tomar rapidamente
decisões e resolver os problemas que vão surgindo. Eu fico meio abananada e lá
vou acenando sempre que ele me pergunta o que é que eu acho disto ou daquilo!
Entretanto,
como a ideia de ficar um dia inteiro em Philadelphia à espera nos pareceu logo
um péssimo cenário, resolvemos alugar um carro e pusemo-nos a caminho. Foi uma
viagem de 12 horas. Um pouco mais de 1.000 Km. Atravessamos a Pennsilvania, uma
pontinha de West Virgínia, Ohio e Indiana. Apanhámos uma tempestade de neve nos
Apalaches e ao longo da viagem assistimos à gradual descida da temperatura de 5º
positivos para 24º negativos!
Chegámos a
Indianápolis já era de noite. A cidade estava paralisada. As estradas estavam
cheias de neve. A coisa era de tal maneira dramática que no dia anterior (Domingo)
o Mayor da cidade tinha declarado que era ilegal conduzir, excepto em situações
de comprovada emergência! Quando
chegámos apesar de já não estar em vigor tal proibição, não se via quase
ninguém na rua.
Fomos
directamente para o aeroporto onde tínhamos deixado o nosso carro. Enquanto eu
e a Matilde ficámos no terminal das partidas à espera, o Rui e o Miguel foram
entregar o carro alugado e buscar o nosso carro ao parque de estacionamento de
longa duração, que estava coberto e rodeado de neve por todo o lado. Lá
limparam o suficiente para o conseguirem tirar dali. Estavam -24º! Procurámos
um hotel para passar a noite e lá fomos.
Terça, dia
7 de Janeiro – Fomos acordados um pouco antes das 8 da manhã com um telefonema
da US Airways para o telemóvel do Rui. Era uma mensagem gravada a informar que
o nosso voo de Philadelphia para Indianápolis tinha sido cancelado! O Rui
desatou-se a rir.
Por volta
das 10 horas iniciámos a viagem de regresso a Urbana. Quase 3 horas por uma
auto-estrada coberta de gelo e rodeada de neve. Vimos dezenas (se não centenas) de carros e camiões na berma
da estrada – tinham derrapado no gelo e ficaram enterrados na neve.
Impressionante! Nunca tinha visto nada assim, e vivemos 5 anos em Minneapolis! A viagem foi toda feita a muito baixa velocidade, a escolher os
bocadinhos da auto-estrada que pareciam menos gelados. Sempre rodeados por
camiões, alguns demasiado destemidos para o meu gosto!
Chegámos a
casa à hora do almoço. Cerca de 60 horas depois de termos saído do aeroporto de
Lisboa! Chegou finalmente ao fim uma viagem que não correu bem. Mas podia ter sido pior! Não tivemos que passar horas no aeroporto a dormir sentados. Os miúdos foram impecáveis, apesar do cansaço e dos atrasos. Podemos contar com o Miguel para fazer os trabalhos árduos, sempre com boa vontade. As viagens de carro foram tranquilas, apesar das "condições atmosféricas adversas". E quando chegámos a casa e nos preparávamos para limpar a neve acumulada nas entradas da casa e da garagem, apareceu um sujeito com uma máquina limpa-neves a dizer que por $ 45 nos limpava a neve! Fechámos negócio por $ 40 e "em menos de um fósforo" estava tudo limpo!